Crítica: Travessuras da Menina Má

11 Mai 2012 Uncategorized

Escrito por: Mario Vargas Llosa; edição: Alfaguara, 2006; 302 p.

Surpreendente. Esta é a palavra que define o penúltimo romance de Mário Vargas Llosa, “Travessuras da Menina Má”, publicado no Brasil pela editora Alfaguara, em 2006. Narrado em primeira e terceira pessoa, o livro é um olhar retrospectivo do personagem-autor “Ricardo Somocurcio” sobre sua vida e os últimos 40 anos transcorridos, desde o momento em que conheceu “a menina má” – o início metafórico de sua vida, e de seu desassossego.

Não estamos diante de uma história de amor convencional, e a isto Vargas Llosa merece méritos, afinal, cair no clichê neste tipo de enredo é sempre tentador. “Chilenita” ou “menina má”, como é comumente chamada a personagem principal (que só saberemos o verdadeiro nome já no final do segundo ato), brinca com os sentimentos de Ricardito ao seu bel prazer e interesse. E não se engane: é ela quem define os rumos da história, cabendo o papel do narrador a mero coadjuvante na vida dela, e até mesmo na dele. Com maestria, Mario Vargas Llosa nos leva a criar empatia pelo narrador, colocando-o em uma posição vulnerável e submissa, mesmo que consentida. Já à “chilenita”, Vargas Llosa nos reserva o sentimento de admiração, por sua personalidade marcante, mas também uma boa dose de antipatia, por seus valores deturpados.

A primeira metade do livro (correspondente ao primeiro ato), apesar de essencial, é um tanto quanto monótono, por sua previsibilidade no rumo dos acontecimentos. Mesmo diante de situações tão diversas, sabemos o que vem a seguir, e até este momento a história não tem absolutamente nenhum rumo definido. Ao lermos, não nos preparados para as reviravoltas que viriam nas próximas 150 páginas, tão surpreendentes, mesmo na sua previsibilidade. Neste primeiro ato temos a construção do contexto dos personagens e também do contexto histórico da Europa – aliás, é neste quesito que Vargas Llosa peca ao relatar um caso de AIDS na Inglaterra durante a década de 70, quando historicamente seu primeiro relato corresponde a meados da década de 80.

Utilizando-se de diálogos inteligentíssimos, sarcásticos e por vezes irônicos, Vargas Llosa descreve sem ser exaustivo, apegado a minúcias impressionistas que nos ajudam a construir mentalmente as personagens de forma bem definida, como quando ele relata que um homem a quem acabara de conhecer “expelia uma chuvinha de saliva ao falar”.

Mas é a cargo da “menina má” que está o rumo da história, mesmo quando ela não está presente. Construída de forma fascinante e inteligente por Llosa, ela nunca deixa de nos intrigar, nem de nos surpreender, mesmo quando desaprovamos e até mesmo julgamos suas atitudes. Suas várias facetas e personalidades, identificadas pelos diversos nomes que ela recebe durante o livro, ajudam a criar a aura de mistério que a envolve, até às linhas finais. Com uma redenção pesada no terceiro ato, tirando-lhe toda sua arma e sua essência, Vargas Llosa se não consegue seu perdão, consegue sua redimissão.

E é a cargo deste terceiro ato que o ciclo de mais de 40 anos se encerra. Curto, porém denso, o último capítulo nos reserva a surpresa das surpresas. Escrito sabiamente a fim de fazer o leitor se perder para depois se encontrar, Llosa encerra esta história, baseada no acaso, de maneira poética. E dolorida.

Cinéfilos de menos, mal educados demais.

26 Jan 2012 Cinema, Voyeur

Vou ao cinema desde… vejamos, meus cinco anos? Muito provavelmente, talvez um ano a mais, talvez um ano a menos, mas lá se vão vinte anos desfrutando da sétima arte, que se tornou ao longo deste período uma paixão. E tal como uma paixão, desejamos que ela permaneça preservada. Mas parece que ultimamente desenvolvi um novo dom: o de atrair pessoas que entram na sala de cinema para bater papo. Não que isto nunca acontecesse, vejam bem. Aliás sempre foi uma queixa de 9 entre 10 amantes de cinema, pois pessoas mal educadas e que não respeitam o espaço alheio sempre existiram. Porém percebo que a intensidade auditiva tem aumentado de forma considerável ultimamente, e o problema tem se tornado crônico.

Só posso considerar que, das duas, uma: ou estou realmente atraindo este tipo de gente, ou as pessoas estão ficando mais mal educadas e desrespeitosas com o passar do tempo. Uma regressão??? Talvez. Ontem, fui à sessão de “O Espião Que Sabia Demais”, no Playarte, às 21h10. E se você estava sentado na penúltima e última fila, saiba que você tem PhD em falta de educação. E como se não bastasse um grupo de tagarelas de um lado, um casal atrás e outro do lado oposto exerciam a mesma descordialidade. Mesmo com os insistentes “shhhhhhhhs” emanados na sala. E chegar ao cúmulo de pedir para fazer silêncio em voz alta (e com desmerecida cortesia!) adianta? Bem, pode até adiantar, mas não sem antes ouvir risadas irônicas, um “Vai para a fila de baixo”, ou então “Eu também paguei”, e até um –pasme- “Você enxerga com os ouvidos?”, como eu mesma ouvi com estes ouvidos que a terra há de comer, na sessão de “Imortais”. Bem, eu não enxergo com os ouvidos, como bem é notório, mas também paguei aproximadamente R$ 20 (que não é um preço barato); e o que delimita conversas não são as fileiras, mas a consciência. Cinema não é praça de alimentação. Existem milhares de lugares para se conversar, por que raios pagar quase R$ 20 para falar justamente em um dos raros em que não se deve? E se você não está “a fim” de ver o filme ou o achou chato, QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO ALI? A vontade que tenho é de exclamar: “eu tenho certeza absoluta que não foi essa a educação que a senhora sua mãe lhe deu, ela nunca iria ensinar a perturbar a paz alheia, aliás, ela deveria se decepcionar por ver no que o filho dela se transformou”. Caráter e a falta dele, não se ensinam.

Pode parecer abstrato e arrogante, mas só posso supor que as mesmas pessoas que fazem isso são aquelas que não param o carro para pedestres atravessarem, que furam filas, que jogam lixo na rua, que desrespeitam sinal vermelho. Falta de educação é falta de educação, em qualquer situação que seja. E falta de consciência não se restringe a uma situação apenas. Hoje dou graças por nunca ter ido a uma sessão de Harry Potter, Crepúsculo e afins, e conseqüentemente nunca ter sofrido com os gritos das adolescentes e marmanjas que não sabem conter sua libido perante um galã numa tela. Como diz o bom e velho ditado: os incomodados que se retirem, e graças a ele, os cinemas estão cada vez mais lotados justamente pelas pessoas que não o respeitam nem o amam. E desde ontem, são dois cinéfilos a menos. DVDs pra que te quero.

A moda no seu devido quadrado

5 Jan 2012 Jornalismo e Mídia, Voyeur

Não sou do tipo de pessoa que acha que moda é algo supérfluo. Já fui, mas hoje minha visão sobre o assunto é bem diferente. Acho que moda, além de tudo, é uma vertente da arte, pois retrata uma época, costumes, tendências, e acima de tudo, personalidades. Não sou uma profunda entendedora e estudiosa sobre o assunto, mas é inegável que o que um Alexander McQueen produzia era uma verdadeira obra de arte em forma de roupa, e assim se sucede com outras tantas grifes do mundo, como Chanel, Givenchy, Prada, etc.

Através da moda nos espelhamos para o mundo, e acho que ela acaba sendo uma das mais democráticas formas de arte, afinal você pode não saber pintar, esculpir, nem tocar qualquer instrumento, mas tem suas preferências na hora de se vestir. E apesar de achar que não é necessário gastar fortunas comprando roupas, acho ridícula a idéia de que uma bolsa Victor Hugo deveria custar R$ 50 e um casaco Armani R$ 70 na loja da esquina. É tudo uma questão de valorização da obra de arte, o quadro da Mona Lisa tem valor incalculável, por tudo o que ela representa para toda a humanidade. Ninguém compra um Picasso ou um Monet no mercado “2 por 1”, mas se alguém quer muito um quadro do Picasso para colocar na sua sala e não tem dinheiro para tal, apela para a cópia. Por quê razão com a moda seria diferente? Entendam, não estou defendendo as cópias, mas elas são fruto de um sistema financeiro em que alguns tem mais, outros tem menos, e sempre existirão. Só acho que sobre este assunto, acho que é gente demais polemizando sobre assuntos de menos.

No entanto, este texto não foi motivado pela discussão do valor da moda, mas sobre quando ela ultrapassa certos limites aceitáveis no mínimo do bom senso. Já faz alguns dias que vi a imagem da campanha de 2011 da Vivienne Westwood   e decidi escrever sobre ela, ou melhor, sobre o absurdo que ela representa. Não é necessário nenhum tipo de descrição da imagem, ela fala por si só: a própria Vivienne aparece como uma vendedora ambulante de acessórios, em um cenário que de glamouroso nada tem. Apenas pobreza, miséria. Somos imediatamente remetidos através da imagem à África, pois o cenário e as características populacionais denotam isso. Partindo do pressuposto de que esta não foi uma brincadeira de péssimo gosto, mas sim uma campanha publicitária, só posso acreditar que as pessoas perderam qualquer noção de ética e limite. Uma coisa é realizar uma campanha publicitária, a outra é explorar a miséria alheia para vender. Estas pessoas tiveram sua imagem de miséria, sofrimento e dor, associadas à pobreza, a fim de que a marca venda. Além de muito mal gosto, uma injustiça.

Outra campanha que vi por estes tempos que me deixou abismada é de uma estrelada por uma das embaixadoras da ONU pela paz. Apesar de não ser tão revoltante, é ridícula por si só. A campanha da Louis Vuitton  de 2011  traz ninguém menos do que Angelina Jolie, em um cenário do Camboja, com roupas maltrapilhas, descalça, mas ostentando uma bolsa da marca. Isso sem levarmos em consideração que seu primeiro filho adotivo nasceu no país, o que torna a situação mais, digamos, inusitada ainda. Angelina precisava mesmo destes milhõezinhos pagos pela grife na sua conta bancária?? É a pergunta que não quer calar. “Esta sou eu, Angelina Jolie, descalça, andando num país devastado pela guerra, país onde meu filho nasceu, maltrapilha, mas com a minha Louis Vuitton pendurada debaixo do braço”.  É a única legenda que consigo descrever para esta imagem. Uma anticampanha, algo como o que não se deve fazer numa campanha de publicidade, eu diria. Ou as pessoas estão perdendo a noção, ou eu estou ficando chata/ crítica/ chocada demais com o mundo.

Não vou nem mencionar neste post as campanhas usando peles de animais verdadeiras, ou ainda o já tão comentado vestido de carne que Lady Gaga usou (outra insanidade; não sou vegetariana e como carne quase todos os dias, mas a utilizo para minha alimentação, não a desperdiço tornando a morte de animais em vão; e não, não me considero hipócrita por isso). O mundo da Moda não precisa de mais polêmicas, ainda mais tão desnecessárias e ignorantes, do que as já existentes.

Há tempos não postava nada, e espero realmente que 2012 seja um ano mais produtivo e, por que não dizer mais promissor? Infelizmente, este primeiro post do ano está relacionado a uma notícia lamentável: a morte de um grande jornalista, escritor e humano, Daniel Piza. Jovem, com uma carreira próspera e já consolidada, um intelectual nato. Piza escrevia como poucos, e sabia como raros. E não é preciso sequer ler muitos de seus textos para notar já de cara estas características latentes. Lamentavelmente, 2012 nunca chegou para ele. Mas chegou para nós, que lamentamos com real dor sua partida tão prematura e repentina.

Não serei falsa, nunca fui sua leitora assídua e diária. “Descobri-o” tardiamente graças ao Luís, mas, confesso, posterguei ser uma das suas seguidoras ferrenhas. E hoje me arrependo de tamanho relapso. Segue a seguir o link para uma de suas entrevistas para outro talentoso jornalista e escritor português, João Pereira Coutinho; mais uma vez, créditos ao marido. Poucas vezes li algo com o qual me identifiquei tanto. E essa identificação pode ser resumida em uma frase: “Só espero poder morrer sentindo o cheiro dos meus livros…”. Espero que sua morte tenha lhe inebriado com um dos mais maravilhosos cheiros existentes, dos livros que tanto amamos.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1028460-joao-pereira-coutinho-uma-conversa-com-daniel-piza.shtml

Manaus, eu te odeio

21 Set 2011 Jornalismo e Mídia, Voyeur

Estou revoltada, estou na TPM, o blog é meu e eu escrevo o que quiser, então vou fazer minha declaração de ódio por tudo o que esta cidade representa pra mim. Você está completamente, absolutamente, redondamente certo. Eu não sou daqui. E quem sou eu para falar? Bem, eu moro, pago impostos e vivo nesta cidade, então creio ter o mínimo de propriedade para dizer. Que os manauenses da gema me dêem licença, mas se você sente profundo amor por esta cidade, amor capaz de tapar o sol com a peneira sob as mazelas diárias, bem, é melhor você ler o site da prefeitura.

Muitos me perguntarão (como já perguntaram) “que diabos você faz aqui já que odeia tanto Manaus?”. A resposta parece vaga, mas é muito certa: circunstâncias me trouxeram aqui. Não vou embora amanhã por outras tantas circunstâncias, mas Manaus está prestes a se ver livre de mim. E eu dela. Qualidade de vida, nem muito dinheiro compra.

Se você mora em casas normais (sem poço artesiano nem gerador), em bairros normais (Cidade Nova, Flores, Santos Dumont, Vieiralves, Cachoeirinha, Compensa, São José, Centro, etc), você com certeza já se deparou com alguma destas situações frustrantes: ou chegou em casa após um longo, calorento e cansativo dia de trabalho e não tinha água na torneira nem para dar a descarga; ou estava dormindo o sono dos justos e foi criminosamente içado à realidade por mosquitos te assassinando debaixo de um calor infernal em plena madrugada, que você constata depois durar mais alguns dias, por causa do ar condicionado queimado e que você não terá como repor tão cedo, afinal dinheiro não nasce em árvore. Se você não vive nenhuma destas situações, meus parabéns, você faz parte da seleta parcela da população para quem a cidade existe: os abastados. Se vive, bem vindo ao clube da grande maioria.

Não estou falando de luxos aqui, veja bem. Não quero beber água mineral da torneira. Quero ter direito a usar aquilo pelo qual pago caro todos os meses: água para tomar banho, lavar roupa, fazer comida. Isto por que eu tenho que agradecer (pasme) por não sofrer com a falta de água durante longos períodos. É aí que eu me pergunto: como assim? Tenho que estar feliz jogando o jogo do contente por chegar em casa e não ter água, mas saber que de madrugada ela provavelmente vai voltar, e não triste, pois existem pessoas que não tem água por dias, ou até meses?? Os parâmetros, que me desculpem os otimistas, estão muito aquém. Gostaria que, AO MENOS, eu tivesse meu eletrodoméstico, parcelado em 47 vezes na bemol, fosse reposto pela companhia que deveria fornecer energia, ao invés de cortá-la sem mais nem menos na calada da noite. Adoraria não necessitar de carro para trabalhar, e SIM, sou super adepta das ciclovias e do transporte coletivo para locomoção da população e acho que carro em cidades que pensam no futuro é luxo, mas em Manaus, venhamos e convenhamos, é uma necessidade. Necessidade que já vem com atestado de suicídio no ato da compra, pois o stress que o trânsito manauara causa, bem não pode fazer. Nem vou mencionar aqui o calor, pois muitos dirão que isto não depende de ninguém, mas ninguém se lembra que igarapés completamente poluídos, sujeira nas ruas, prédios construídos sem a menor preocupação ambiental e lixos não reciclados poluem o ambiente irremediavelmente e fazem parte do cotidiano de uma cidade que terá a copa verde, mas não tem árvores.

E verdade seja dita, se você não tem uma lancha, barco ou ao menos uma voadeira para ir até o meio do rio tomar banho sem risco de sair com uma doença de pele ocasionado pelo esgoto a céu aberto, em Manaus só lhe resta a bica, ou quando muito uma piscina.

Toda cidade tem seus problemas, é bem verdade, nenhuma é perfeita. Concordo em gênero, número e grau. Nem pretendo citar casos e esfregar na cara de Manaus pra dizer: tu não prestas, tal lugar é que presta. Mas não consigo vislumbrar uma solução sequer a médio prazo para estes problemas que sim, são enormes. Partindo do princípio que os prós e contras de uma cidade proporcionam às pessoas bem estar e acabam por criar um vínculo entre ambas, e de que não tenho raízes verdadeiramente fincadas em canto nenhum a ponto de ser barrista e afirmar a superioridade geográfica de ninguém, é com esta bagagem que constato que de Manaus, eu só levo o marido, o suco de cupuaçu e o pão com tucumã e queijo coalho.

Isto sem mencionar demais problemas que considero enormes, tais como custo de vida altíssimo, dificuldade de transporte, total marginalização dos deficientes físicos – não sou deficiente nem tenho ninguém na família nesta condição, mas uma das coisas que mais me deixa feliz é vê-los sendo respeitados e tratados como merecem; trânsito que além de caótico é maluco – uma terra de ninguém, onde todos param onde querem, ultrapassam onde querem, andam à velocidade que querem, na faixa que querem e só usam o pisca alerta quando querem, ou não querem. Tem coisas que dinheiro não compra.

Esta é a cidade que vai receber a copa do mundo. Uma cidade que não oferece o mínimo de dignidade aos seus moradores, mas quer ostentar castelos a quem passará não mais do que uma semana turistando. A realidade de Manaus, só quem tem que enfrentar todas as mazelas diárias que a cidade oferece, conhece. Nem assistir ao por-do-sol mais fantástico que o encontro das águas já viu com uma bela cerveja na mão recompensa tamanho descontentamento. Enquanto ele ainda existe, diga-se de passagem.

Quando o milagre está no sorriso

23 Ago 2011 Voyeur

Existem certas coisas que nunca damos valor, por sua simplicidade intrínseca. O ato de ouvir é uma delas. Grande parte da população se não ouve perfeitamente, ouve favoravelmente. E uma das primeiras vozes que escutamos é a de nossa mãe. Acho que um rosto sincero e já de certa forma consciente do que se passava expressa tudo o que nunca sequer percebemos. Se este não é o vídeo mais lindo que eu já vi, figura pelo top 3 facilmente, justamente por sua simplicidade, sinceridade, e no fim das contas, por quê não um milagre?

Este é o Johnatan, ouvindo pela primeira vez a voz de sua mãe. Impossível não se emocionar. Mais uma vez, obrigada youtube e tecnologia, por me proporcionarem esta linda cena.

A antropologia explica

19 Ago 2011 Jornalismo e Mídia, Voyeur

Li este artigo http://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/960981-ira-onde-a-mulher-perde-seu-corpo.shtml do jornalista Clóvis Rossi ontem e passei o dia refletindo sobre ele. Uma das coisas que mais me intriga no ser humano é a capacidade de “superiorizar” sua própria cultura, como se esta fosse o parâmetro para analisar e julgar as demais. O que mais me choca é que alguns artigos, por mais simples e inofensivos que pareçam, escondem uma intolerância enrustida, que com a ajuda de veículos de comunicação fortes e formadores de opinião, ajudam a semear este pensamento individualista e egoísta. A antropologia explica.

Em um sentido micro, a intolerância te leva a analisar a questão com esta visão de superioridade, ao considerar que o outro tem essa ou aquela atitude e que ela é, de alguma forma, errada. É comum vermos isto inclusive com culturas diferentes pertencentes ao mesmo país. Não precisamos ir muito longe, aqui mesmo no Amazonas existe um conflito sociológico e antropológico sobre hábitos indígenas que a sociedade “civilizada” condena. Um exemplo? O ritual da tucandeira ou o fato de algumas tribos matarem bebês que nasçam deficientes. A questão é muito mais complexa: até que ponto determinado hábito é cultural e a partir de quando ele interfere nos direitos humanos? A partir de quando os “civilizados” podem interferir nestes hábitos? Quem decide o que é interferência no direito humano e o que não é? É exatamente aí, nesta linha tênue – quase transparente, que reside o perigo.

Não há como, de forma alguma nem por qualquer indivíduo, generalizar determinado tema. Mesmo aqueles que defendem que o direito à vida é universal vão perceber que ele não pode ser universalizado, mas deve sim ser relativizado. Se o direito à vida é universal, a pena capital de países ocidentais (como os EUA, que ainda se utilizam do método do enforcamento e da cadeira elétrica) se iguala à pena capital empregada por determinados muçulmanos às mulheres adulteras. Como não? Atentou-se contra a vida em ambos os casos, a diferença reside apenas no que é considerado crime ou não. E quem vai decidir o que é crime ou não? Cada sociedade impõe seus próprios parâmetros, e é daí que vem a relativização. Cada sociedade escolhe o que é melhor para si, o que lhe cabe mais. E não vale apontar o dedo na cara do outro depois disso.

Não estou defendendo a pena de morte e muito menos que mulheres sejam apedrejadas em praças públicas. Em um mundo perfeito, a liberdade e o livre-arbítrio consciente seriam os parâmetros individuais para as pessoas viverem harmonicamente em sociedade. Como isto é apenas a imaginação de um mundo idealizado, cada sociedade criou seus próprios parâmetros de convivência. E não cabe a mim dizer que o do outro está errado e o meu certo. E igualmente o contrário.

Digo isto porque o que me incomodou neste artigo foi a visão extremamente preconceituosa de uma pessoa que passou a morar em um país com uma cultura completamente diferente. “(…) Gostava muito da liberdade de poder sair a qualquer hora. Aqui, depois das 22, sozinha, não tem jeito. (…) Sem o conforto de uma roupa é meio chato, mas tenho ido a alguns lugares. Nesses momentos, você pode abstrair e se sentir em Nova York ou em qualquer capital européia, pois são lugares bacanas, embora sem álcool e com o ‘ ‘dress code’ daqui (…)”. É muito fácil uma brasileira, acostumada a usar roupas curtas quentes e leves, sair e chegar à hora que bem entendesse, falar mal das mulheres “enclausuradas” do Irã. É muito fácil se indignar pelo jeito como lhe olham ou lhe tratam quando seu tornozelo fica à mostra. Difícil é entender que aquele hábito faz parte daquela cultura e que na verdade, naquele ambiente, a pessoa errada é o intruso. Se uma iraniana viesse ao Brasil, ela também se sentiria desconfortável por ver peitos e bundas à mostra o tempo inteiro. Quem está certo? Quem está errado? Ninguém. É tudo uma questão de tolerância e convivência. Se aquelas mulheres usam o véu e se cobrem dos pés à cabeça, e NÃO RECLAMAM POR ISSO, por que eu, que não nasci naquele meio, que não sou daquela cultura, devo reclamar? Afinal, estou ali por escolha própria.

Poderia escrever páginas e páginas sobre isso, mas meu objetivo é outro: chegar na questão macro da coisa. O que objetiva a guerra Irã x Iraque? O que move o ETA ou o IRA? Intolerância religiosa, política, social. Levando da questão micro para a macro, vejam onde isto pode chegar. Tudo pela intolerância. O pensamento é o mesmo, o que muda é o ímpeto, o desejo de “superiorizar” sua cultura, e o quão disposto se está para provar isso. Claro está que é impossível para qualquer ser humano compreender todos os aspectos de infindáveis culturas ao redor do mundo. Mas aceitá-los e não menosprezá-los já é um grande passo.

Às mulheres da minha vida

5 Ago 2011 Voyeur

Foi só agora, na vida adulta, com todos os afazeres, compromissos, responsabilidades e deveres provenientes desta fase da vida – que tarda mas não falha, que pude realmente admirar as mulheres da minha vida. Todas elas, que eu via o tempo todo atarefadas com alguma coisa a fazer, muitas das vezes sem tempo para si mesmas, mas dedicando todo o que restava aos que estavam ao seu redor. Admiro ainda as que não conheci, mas que certamente tinham a mesma atitude, a mesma vida, a mesma rotina, cada qual no seu mundo.

Hoje, apesar de ter uma casa para cuidar e trabalhar “fora” o dia inteiro, já não estou mais na faculdade nem tenho filhos ou cachorros ainda. Não tenho empregada, mas isto também seria luxo demais, chegando à beira da preguiça, se considerarmos um apartamento de 50m² no qual moram duas pessoas. Acordo às sete da manhã (moro perto do trabalho), tenho tempo para ir à academia na hora do almoço, meu trabalho termina às 17h30, faço um supermercado ou outro afazer porventura, e ao chegar em casa faço o almoço do dia seguinte – nada muito elaborado, devo confessar, dou uma arrumada de leve na casa, coloco uma roupa para lavar, guardo roupas que estavam no cesto, e pronto. Estou pronta para dormir, ler, escrever, ver filmes ou apenas ficar olhando para a luz do teto deitada na cama, isto às 9 horas da noite, no máximo. E mesmo assim, esta pequena grande rotina às vezes me cansa. Há dias em que não quero chegar perto da cozinha, e por sorte meu marido entende e respeita isto, e simplesmente não cozinho. Pronto. Minha rotina não tem nada de pesada, nada de absurda, nada de anormal. E mesmo assim ela cansa. E só consigo considerar as mulheres que conheci como verdadeiras heroínas.

Não estou sendo tendenciosa, mas vou tomar como exemplo a mulher mais próxima que tive de mim: minha mãe. Lembro-me que na infância ela acordava cedo, preparava o café, e como tinha dois filhos pequenos, arrumava-os para ir ao colégio, trabalhava o dia inteiro, voltava para casa, dava uma arrumada na casa (não tínhamos dinheiro para empregada), passava umas roupas, estendia outras, fazia o jantar e o almoço do dia seguinte, e só depois de nos ver arrumados e prontos pra dormir, ia ver um pouco de televisão, ou ler, para enfim poder dormir. Isto não menos que 22h30 ou 23h. Meu pai ajudava, é claro, não era do tipo machão que não lavava uma louça na pia. Por sorte, ela sempre pode contar com ele, mesmo que fosse para nos entreter enquanto ela poderia ter um pouco de sossego para fazer as coisas, como cozinhar. Só quem tem filhos pequenos sabe como é difícil fazer tudo com os pestinhas por perto. Tudo isto, para acordar no dia seguinte, antes das 6 da manhã, e recomeçar tudo de novo. E ainda tinha que arranjar um tempinho para se embelezar, cuidar do cabelo, de fazer a touca (sorry mami), de passar cremes, enfim, tudo o que mulher gosta de fazer para se sentir minimamente bem. É verdade que quando crescemos (eu e meu irmão), passamos a ajudar na casa, eu cuidava da arrumação (mais ou menos, né, brincar e assistir tevê tomavam um pouco-muito do meu tempo), mas eu já fazia almoço e jantar, e ela enfim pode ter um pouco mais de tempo, e porquê não paz?

E é então que remeto à minha avó, que morava em uma cidade do interior, teve sete filhos em um espaço de, sei lá, 12 anos, um marido que este sim era do tipo machão, uma casa enorme para cuidar, acordava às 4 e meia e ai dormir à meia noite, tudo na maior dificuldade. Tinha um fogão a lenha, tinha que colher da horta as verduras e legumes que serviriam para o almoço, que aliás não poderia ser requentado de forma alguma. O jantar também era outra coisa importante. Tinha que estar pronto e quentinho, tudo no seu horário. Lavava à mão e passava TONELADAS (já pensou sete filhos???) de roupas no ferro, também à lenha. Final de semana era um dia qualquer, com a exceção de que o marido ficava em casa, ou seja, dava era mais trabalho pra coitada. Não quero nem pensar quando as crianças estavam de férias, período maravilhoso para elas, mas terrível para as mães. Lembrando delas, eu me sinto ridícula comigo mesma (sei que não está certo, mas enfatiza, então desculpem, mas vou usar minha licença poética) por me sentir cansada com tão pouco. Acho que elas não se davam ao direito de se sentirem cansadas. Já eu não TENHO o direito de me sentir cansada. Tenho muitas facilidades hoje em dia, inimagináveis na época de nossas mães e avós. Não precisamos ir muito longe para encontrar nossas heroínas. As minhas, ao menos, estão bem aí.

From Dust to the Beyond

2 Ago 2011 Música

God Is An Astronaut. Indeed.

APC at Center Kent.

1 Ago 2011 Música

E é por isso que é a preferida. E eu ainda sonho em assistir isso ao vivo. Por enquanto só me resta chorar.

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